Tuesday, November 30, 2010

A dor da mudança, e a mudança da dor

Algumas vezes acontecem algumas mudanças repentinas e bruscas nas nossas vidas. É um sentimento ruim de perda, de encômodo e de desestabilização. Quando acontece este tipo de mudança, queremos respostas, queremos entender, pensamos que precisamos entender. Se entendêssemos, talvez poderíamos explicar pra nossa própria dor: aconteceu por este motivo, portanto entenda e trate de passar logo. Tentamos racionalizar nossos sentimentos. Mas pra maioria desses casos, nós não entendemos porque não queremos entender. E a resposta é simples: aconteceu porque as coisas mudam. Porque tinha que acontecer. Porque não pode continuar assim. E isso não é explicação que se dê para um enfermo.

É fácil entender que mudar dói, mas é difícil entender que doer muda, no momento da dor. Achamos que a dor é um castigo, arranjamos mil razões negativas para a dor. Odiamos fatalmente o motivo de nossa dor por uns tempos, e depois passa. Começamos a entender que doer muda quando já estamos mudados. Talvez com um pouco de dor ainda, mas mudados a ponto de não nos importarmos mais tanto com ela. Ou talvez seja o próprio fato de que não nos importamos mais tanto com ela que nos faz perceber que mudamos.

Somos acostumados a nos desacostumar desde pequenos. Quando eu tinha 3 anos minha mãe tirou minha chupeta de mim. Imagino que eu devo ter aprontado um escândalo. Devo ter chorado a noite inteira, e devo ter pedido a maldita chupeta de volta umas mil vezes, e devo ter sentido muita raiva da minha mãe. Mas não adiantou, ela não me devolveu a chupeta, e eu me acostumei. Quando vemos que não vai adiantar espernear, damos um jeitinho de sair da agonia da ausência de alguma coisa ou de alguém. E o jeitinho sempre é se acostumar. Entendermos que nada vai adiantar, e que se quiser continuar vivo é necessário que se continue respirando sem aquilo. Demore o tempo que precisar, uma hora a gente entende que a gente só "precisava" daquilo porque a gente queria precisar.

Quando nossa dor cicatriza e a agonia passa, inicialmente a gente tem vontade de não precisar de mais nada nunca mais, pra que mais nada seja tirado da gente, e que não tenhamos que passar pela agonia do desapego de novo. E é bom que passemos um tempo sozinhos mesmo, faz parte. Mas no fundo, somos todos dependentes de alguma coisa; a questão é o quanto você pode depender da coisa da qual você depende. E a maturidade chega quando a gente vê, não que não precisamos de nada nem de ninguém, mas o quanto precisamos de algumas pessoas e coisas, e o quanto estas pessoas e estas coisas são poucas. Não poucas de grandeza -pelo contrário, se são poucas, significa que são grandes - mas poucas de quantidade. Entendemos que aquelas pessoas que sempre estiveram ali são as pessoas das quais você pode e deve precisar. Entendemos que as pessoas que te viraram as costas foram as pessoas das quais você não deveria nunca ter precisado. Mas é necessário que se precise de pessoas erradas para se chegar até aqui. É necessário que estas pessoas nos virem as costas, e é necessário que sintamos dor. Por quê? Porque dói mudar. Porque doer muda. E porque é necessário mudar.


"Take what you need and be on your way, and stop crying your heart out."

Sunday, November 28, 2010

As Pedras, a Queda e o Pasto.


Alguém me disse certa vez que a gente demora em média de 3 a 5 meses pra criar um novo hábito. 3 meses, acho que foi o necessário pra mim, ou pelo menos o necessário pra me deixar sóbria. É engraçado olhar pra minha última postagem, ha 3 meses atrás. E é estranho olhar pra trás estando sã e salva.

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Imagine uma pessoa vendada que precisa chegar a um fim. Ela precisa passar por uma sequência de pedras suspensas no ar para chegar ao seu destino. Mas ela não sabe qual a distância entre uma pedra e outra, nem sabe qual o tipo de substância que se encontra lá em baixo, e nem sabe qual é a atura dessa pedra. Ela começa então por uma pedra de um modo muito fácil. A pedra é estável, não muito confortável, mas estável. Ela se sente segura em cima dessa pedra, e pensa que pode não precisar seguir em diante, seria muito melhor permanecer na segurança daquela pedra do que se arriscar. Ficar em cima dessa pedra é bom, pra quê sair dela? Mas uma força muito maior pede pra que essa pessoa siga em frente, este ainda não é o seu destino. Por um incomum lapso momentâneo de coragem e determinação ela dá um passo a frente, e acaba pisando numa pedra muito maior e mais aconchegante (se é que esta palavra pode ser usada para referir-se a uma pedra). Uma pedra plana, grande suficiente pra caber uma pessoa deitada, aparentemente estável. Sim, tive sorte e cheguei até aqui, e só. Pra quê contar com a sorte mais uma vez? Pode ser que a próxima pedra seja longe demais, e eu não consiga chegar até ela num passo só. E se eu cair? Qual seria a altura, quão feia seria minha queda? O que haveria lá em baixo? Não, vou ficar aqui mesmo. Eu estou feliz aqui, e é aqui que eu quero ficar. Vou construir minha vida em cima dessa pedra, e serei muito feliz aqui, já tá bom, não preciso de mais que isso, não sou uma pessoa ambiciosa. Prefiro ficar aqui a me arriscar e cair. E a pessoa se conforma com aquela vida lamentável, e pior, ela se convence de que é absolutamente feliz em cima daquela pedra. Acontece que um certo dia essa pedra desaparece, e essa pessoa cai. Seu tempo de queda é incalculável, ela só sente que está caindo, e junto com ela, todos os seus sonhos cabíveis em cima de uma pedra. Durante sua queda, ela tenta escalar em vão, se agarrar a alguma coisa que dê a ela a sensação de que não está simplesmente vulnerável. Nada. Ela continua caindo, caindo, caindo. Cai sonho, cai venda. A venda cai, e a visão é possível agora. Por horas, dias, meses, anos ou segundos apenas, não se sabe ao certo. Mas ela chega ao chão. Não chega ao chão com uma pancada, nem um arranhão. Ela pousa. E ela vê. Ela sente sob os seus pés um tapete de grama frio e verde. Olha pra trás e não entende a dimensão de sua queda,não sabe nem se na verdade foi uma queda. Pode ter sido uma subida ou uma simples travessia. Ela pode ter chegado até ali nadando ou correndo. Seus sentidos estão completamente confusos. Olha pra trás e não enxerga pedra alguma, nem sinal de pedra. Pensa nos seus antigos planos e perde a dimensão deles, porque é simplesmente difícil demais imaginar naquele contexto. Ela entende então que o que fez a passagem ser tão agoniante e desesperadora era o medo. Medo de cair num mar de ácido sulfírico, medo de espatifar no chão, medo, só medo. Nunca contara com a sorte de ser simplesmente levada. Ela entende então, que não era aquela pedra que a sustentava até então. Entende que alguma coisa a guiara até ali. Alguma coisa a impedira de morrer na queda. A sua frente há um imenso gramado, um ar fresco e agradável. Ela percebe que chegara ao seu destino quando vê que ali é o lugar onde se pode construir todos os sonhos do mundo. Não sonhos para caberem em uma pedra. Sonhos por si só, para não caberem em nada. Sonhos para serem sonhados, simplesmente.


"Ele me faz repousar em pastos verdejantes." (Sl 23:2)